Entrevistas / Interviews:
NOITE ADMIRÁVEL

Por Nino da Silva       Munique, 22 de outubro de 2008

Teatro WILDWUCHS

TEATRO BRASILEIRO DE MUNIQUE – Grupo de teatro RICARDO ECHE Premiere da peça "ILUSTRISSIMO FILHO DA MÃE", de Leilah Assumpção

O pequeno e agradável teatro (80 lugares) no movimentado e chic bairro de Haidhausen, em Munique, já estava uma hora antes de começar o espetáculo, com a anti-sala e bar praticamente lotado com espectadores curiosos (fora oferecido  coquetel e salgadinhos) para assistirem a nova montagem teatral do brasileiro ator/produtor/diretor RICARDO ECHE, que desta vez escolheu a peça acima citada para dar continuidade a sua incansável contribuição de divulgar a arte cênica em língua portuguesa-brasileira na Alemanha.

Devo confessar que desta vez fiquei surpreso do - apesar do tempo chuvoso e frio - público brasileiro que reside na cidade de Munique, mostrar enorme reconhecimento ao trabalho deste rapaz de 40 anos de idade, comparecendo em grande número. Mais espantoso ainda foi o fato de comparecerem pontualmente (sei que é difícil acreditar). Desta vez, não houve aquela enjoativa desculpa de "Não pude, tive que viajar, tive que ficar cuidando das crianças, estava com dor de cabeça, etc. etc. e tal". E não foram só amigos do Ricardo: o público era misto de amigos, caras novas, artistas em várias outras categorias e até alemães que falam um pouco de português ou quase nada.

Ricardo também mudou desta vez seu estilo de apresentação não fazendo como de outras vezes leituras de textos com interpretação (por motivo de direitos autorais) – motivo este, que talvez seja o que afasta um pouco o interesse do público brasileiro. O texto foi decorado e interpretado com maestria. Ele já havia praticado esta façanha em outras produções (PRIVACIDADE A DOIS, na qual atuou com a ótima atriz Sheila Alessandra Rizzato, ENTRE O AMOR E A ESPADA) e obteve reconhecível sucesso. Suas produções contam com o apoio da Associação Cultural Teuto-Brasileira (DBKV) e são geralmente com entrada gratuita. O público também pode contribuir com doações, o que de certa forma ajuda a pagar técnicos, aluguel do teatro e, se sobra alguma coisa, é dividido igualmente entre os atores. Ninguém reclama.

"ILUSTRÍSSIMO FILHO DA MÃE"

Peça em um ato. Cenário simples, mostrando uma sala de estar em um apartamento, provavelmente classe média. Ricardo Eche, como diretor, não gosta de peças "secas", portanto em todas as suas produções sempre há uma introdução musical e desta vez ele escolheu "Night and Day" de Cole Porter. Nada mal. Sua direção foi firme, quase não apresentou falhas, e quando as apresentou foram provavelmente apenas percebidas por "alguns do mesmo ramo". A iluminação estava de acordo com o ambiente e apenas uma vez o próprio RICARDO – interpretando o personagem Jorge Araujo - ficou fora de foco no lado esquerdo palco. Algumas vezes os atores diziam suas falas inteiras com as costas viradas para o público - coisa quase sempre fora da norma. As vozes foram altas e claras para ser suficientemente ouvidas até nas últimas fileiras, mesmo quando HAIDE SPAETE-ENGLING, (a Lena Araujo, mãe de Jorge Araujo) falava em seu tom suave de conversação. A assistência técnica desta vez ficou ao encargo de MARTA VANNINGER que seguiu as exigências do diretor. Uma maravilhosa pintura da artista plástica Sheila Vollhardt embelezava o cenário no fundo chamando a atenção dos espectadores. O figurino da atriz convidada ANDREA MORAES, a Tereza, foi escolha de Suely Cencine. A mixagem de som como sempre, por THOMAS EWERT, estava ótima.

 

Como de outras vezes, Ricardo adora colocar seus personagens dançando no palco, só que desta vez ele os fez dançar depois do final, no momento dos aplausos.A intenção do diretor em apresentar a entrada de Tereza (ANDREA MORAES) como uma aparição, um sonho ou uma ilusão do personagem Jorge Araujo, parece não ter sido capitada pelo público (eu não percebi), talvez por falta de um efeito especial qualquer ou porque sempre falta um impacto final indicando que o espetáculo terminou ou está terminando. 

Tereza entra pela platéia, sobe ao palco, diz suas falas, mas o publico reage só depois que ela despe a capa de chuva e mostra o corpão dentro de um vestido de noite vermelho sem alças. Ela se livra lentamente da capa de chuva virando o rosto para a platéia com um sorriso sensual e conquista aplausos. Uma apresentação curta, porem marcante. Excelente. 

Como ator, RICARDO ECHE encaixou-se de sua melhor maneira no personagem de Jorge Araujo. Foi comedido, convincente, não teve momentos de gaguejo nem de nervosismo exagerado. Sua voz e suas falas apresentaram o tom certo e os momentos engraçados soltavam os risos e as gargalhadas da platéia. 

HAIDE SPAETH-ENGLING foi a mãe ideal. Apenas em sua primeira aparição em cena, quando ela entra feliz se preparando para o encontro amoroso com Caio – personagem que não aparece em cena – ficamos em dúvida se ela está se olhando num espelho invisível à sua frente ou pendurado no teto, tanto que ela se arruma olhando para frente ou para cima. O timing dela com Ricardo Eche é perfeito. Boa química entre os dois. Ela tem uma mímica cênica muito especial e um olhar que mostra o que o personagem está sentindo no momento. Nos momentos cômicos ela acerta em cheio, arrancando gargalhadas do público. Não houve nenhum momento de indecisão nos diálogos e, se houve "cacos" (improvisação), ninguém percebeu. 

A peça é boa, os atores estavam ótimos e o público aplaudiu com muita alegria. Teremos que exigir uma segunda apresentação e que a propaganda de boca seja espalhada para outros brasileiros que não imaginam o que estão perdendo, se deixarem de assistir.

Meus parabéns a todos.

 N.M.S.



Retorno / Zurück  

Início / nach oben